domingo, 23 de junho de 2013

Carnes em Israel

Mudar de país requer além de todas as outras coisas, paciência para reaprender o dia a dia, lucidez para entender que parecido não é igual e que o simples deixa de ser simples quando muda de contexto ou de configuração.

E vidrados em carne como somos, uma das primeiras e maiores dificuldades a ser transposta em qualquer novo país que se vá morar (não só em Israel) é entender que os cortes de carne do Brasil são muito diferentes do resto do mundo.

A notícia mais triste que eu posso dar sobre a carne israelense é que ela não se parece em nada com a carne brasileira em termos de sabor. O fato do boi ser casher altera muito o sabor e como os cortes são feitos de uma maneira muito diferente do que conhecemos é comum perceber sabor ou textura de duas carnes diferentes no mesmo corte (duas para nós, né?).

A segunda notícia triste sobre a carne em Israel é que ela nem de longe faz parte do hábito alimentar diário do Israelense.

Pela ordem as carnes mais consumidas de Israel são:

  • Frango;
  • Peru; [Já que aqui não tem Natal, todo dia é dia de comer peru, certo? rsrs].
  • Carneiro;
  • Porco; [Porco, tem certeza? Tenho e vamos esquecendo essa história de religião em Israel, ok? Aliás, para mim essa é a maior das provas de que Israel é um país que vive alheio a uma religião dita oficial].
  • E por fim, a carne de boi, e acredite, bem lá atrás. E uma boa parte consumida na condição de novilho (bezerro).

Porém, para que vocês não tenham que apanhar como eu apanhei aqui quando cheguei, eu fiz uma correlação/tradução dos cortes israelenses com os cortes brasileiros, mas tenham em mente que essa não é uma correlação perfeita, mas tão somente aproximada.

E a correlação foi feita com base nessa figura:

E sim, a carne de boi é a mais cara das carnes, mas essa não é a razão do baixo consumo, ao contrário ela é mais cara justamente porque o consumo é baixo. Israel é um país onde as coisas de maior consumo são sempre mais baratas, além de estarem sempre em promoção.

Para mim hoje, o carneiro substitui a carne de boi quase que diariamente, aliás nos pratos mais típicos de Israel, como kebab e shawarma a carne de boi costuma ser misturada ao carneiro ou ao peru, mas com tudo isso o Shawarma padrão (que é o prato mais típico de Israel) costuma ser feito de peru com carneiro ou de peru puro,mas ele pode ser feito de qualquer carne ou mistura de carnes.

Nessa foto dá para ver bem a diferença entre shawarmas feitos com carnes diferentes:
Shawarma de novilho e carneiro (esq.)/Shawarma de frango (dir.)
Misturar carnes, que no Brasil é visto quase como um "pecado", em Israel é apenas um dos hábitos alimentares mais comuns. Então lembre-se, se você quer mudar de país se desapegue de todos os seus previsíveis conceitos de certo e errado e entenda que o esquisito deixa de ser estranho e se torna um hábito assim que você resolve aceitar que tudo pode ser normal e não apenas o que você conheceu aos 4 anos de idade.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Repercussão Mundial dos Protestos no Brasil?

Hoje de manhã eu acordei com 36 e-mails na minha caixa de entrada, alguns me enviando vídeos sobre os protestos no Brasil e a grande maioria me perguntando sobre a repercussão do assunto aqui.

Primeiramente, muito obrigada aos que se esforçam em me manter informada sobre o Brasil, de verdade eu agradeço a lembrança.

Agora vamos a pergunta que não quer calar: Como tem sido a repercussão destes protestos em Israel?

Infelizmente morna, para não dizer inexistente. Até hoje eu ainda não tinha visto uma única notícia na mídia israelense que é voltada para o  público israelense (em hebraico) nem na TV, nem em sites ou jornais. Hoje no meio da tarde é que timidamente andaram pipocando uma ou outra notícia sobre o assunto por aqui.

Ainda mais hoje que é aniversário do nosso presidente Shimon Peres e vai ter uma festa/show com vários artistas israelenses e estrangeiros (até o Robert De Niro está aí para o evento):

Aliás, quem quiser deixar uma mensagem para o Peres, basta clicar na foto abaixo e curtir a página no Facebook

Mas, voltando ao assunto, estas foram as únicas notícias que eu vi, até o momento:

200 mil protestam no Brasil: Os Impostos Estão nos Massacrando. (Em hebraico)

200 mil Protestam no Brasil; Janelas Foram quebradas em Prédio do Parlamento (Em hebraico)

Os principais telejornais de Israel não noticiaram nada, pelo menos até agora.

Tirando isso, também há um ato de apoio convocado pelo Facebook marcado para o dia 21/06 às 11:00 horas em Tel Aviv:
Ato em Apoio as Manifestações no Brasil, em Tel Aviv.

Até a última vez que eu vi, tinham um pouco mais de 400 pessoas confirmadas e como nem todo mundo que confirma vai, infelizmente será um Ato pequeno.

A verdade é que por mais que a tecnologia nos una, Israel é um país muito distante e vive uma realidade muito diferente do Brasil e isso nos aliena sim da realidade brasileira.

Eu estou há 5 anos e meio fora do Brasil, 4 em Israel que são também 4 sem pisar no Brasil e, honestamente, não consigo mais ter a exata noção de como as coisas estão sendo por aí. Inclusive acho que isso é uma boa dica para quem está pensando em morar fora do Brasil. Acredite, a partir do momento em que você se integra ao outro país ocorre um desligamento natural do seu país de origem. É preciso ter mais cabeça que coração para não se sentir sem identidade, porque existe sim um momento em que você se sente sem identidade (mas isso é assunto para outro post. rsrs)

Com tudo isso, a campanha para que ninguém vá a copa de 2014 eu faço aqui em Israel desde o ano passado, simplesmente porque eu já achava um evento dessa natureza uma afronta à população brasileira, porém pelo que eu pude ver as coisas estão muito piores, muito mais fora de controle e muito mais caras do que eu imaginava/lembrava.

E apesar de eu ter sentimentos distantes e confusos em relação ao Brasil hoje em dia, eu torço de coração para que de fato o "gigante verde e amarelo tenha acordado" e que vocês aí possam realmente mudar a realidade do Brasil.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Como Eu Aprendi Hebraico? (Dicas)

Quem acompanha o blog sabe que eu não costumo falar muito de mim, mas como nesse caso não tem jeito, também não vou desperdiçar a oportunidade, assim sendo, pega um suco, ajeita a luz e senta porque a história é longa!

Uns 15 dias antes de vir para Israel eu comprei um manual de hebraico (livro + áudio) e foi uma compra incrível porque eu não sabia nada e consegui desaprender o que eu não conhecia. Portanto, primeira dica, muito cuidado com os pseudo manuais e pseudo professores espalhados por aí. Enfim, mas pelo menos eu aprendi as letras por ele.

Então eu cheguei em Israel conhecendo apenas as letras de imprensa, nem sabia que existiam as letras cursivas.

E chegando aqui o meu caminho foi o de todo mundo, entrei para o ulpan esperando entrar para um curso super puxado e descobri que ele não passava de um cursinho estilo senac versão hebraico. O ulpan padrão é uma espécie de triturador de lixo mental. Ele coloca todo mundo no mesmo balaio, ou seja não existe nenhum tipo de diferenciação entre as pessoas, logo você é nivelado por baixo (super por baixo, diga-se de passagem!!!). O objetivo deles é que você saia de lá achando que fala qualquer coisa, confiante disso, então se você consegue formar e escrever cinco frases infantilizadas com dois meses de curso, eles passam a te tratar como se você tivesse descido do Olimpo.

Eu diria que o ulpan é um bom curso para quem sofre de problemas de auto-estima, mas para quem quer aprender um idioma, definitivamente é fraco. É fraco, mas é vantajoso terminá-lo.

Com dois meses de ulpan eu tinha conseguido entender que toda estrutura do hebraico se resume nos verbos e na raiz dos verbos.

Raiz? É, você precisa aprender a separar as raízes dos verbos e a conhecer o significado delas. Fazendo isso e conhecendo os grupos verbais que são 7 nos 3 tempos (passado, presente e futuro). Seus problemas terminaram. O resto passa a ser adquirir vocabulário.

Porém.... É extremamente difícil conseguir compreender os grupos verbais da forma como ele é passado no ulpan, embora tudo tenha lógica, essa lógica não é dada, eles apenas jogam verbos perdidos (e não os colocam no grupo a que realmente pertencem, eles subdividem os grupos reais e dão apenas 5). Eu concordo que não é simples passar esse conhecimento para quem está do zero em hebraico, mas seria muito mais fácil se as pessoas entendessem a lógica desde o começo, ao invés de ficarem tentando decorar meia dúzia de regras verbais perdidas. Porque a partir desse entendimento você lê qualquer coisa, já que as regras de leitura e ortografia são formadas com base em cada grupo verbal.

Então, como eu não curto a ideia de ficar sendo tratada como retardada, com dois meses eu larguei o ulpan. Comprei uma gramática com as explicações em inglês e decidi que eu voltaria para o ulpan quando tivesse compreendido os grupos e os tempos verbais.

Essa foi a primeira gramática pela qual eu estudei:


Junto com ela, eu também comprei um dicionário e um livro de verbos, tudo com tradução para o inglês:

É como eu sempre digo, Israel sem inglês para quem não fala hebraico é um navio afundando no Pólo Norte.

Resumo da história, estudado e compreendido grupos e tempos verbais, voltei para o ulpan uns 8 meses depois e tive sorte, consegui ir para um ulpan diferenciado, mas que só foi vantajoso porque eu já conhecia o que seria dado, se não seria impossível, não era um ulpan para quem estava do zero. 

Esse foi o livro desse meu segundo ulpan (do primeiro não vale nem a pena mostrar):
Livro Alef.
Esse sim, é um excelente livro, destinado, verdadeiramente, à educação de adultos e com um nível mais puxado. A autora dele se chama Meira Ma'adia e é excelente, uma super especialista e lá para o fim do ulpan eu acabei comprando a coleção toda, que incluem:

Bet (intermediário - Lilás) e Gímel (avançado)

Livro de Verbos (vermelho.) e o de expressões idiomáticas (ambos de nível intermediário)

E aqui os dois mais avançados: O de ortografia e de história e cultura judaica (esq.)

Um dos livros por dentro (Bet).
E aí que eu terminei o ulpan, escrevendo bem, conhecendo gramática super bem, entendendo medianamente e falando muito pouco. Mais uma vez eu digo, ulpan ajuda muito pouco e se você não fizer seu "dever de casa" muito bem feito, vai ser mero tempo perdido.

O que eu fazia durante o ulpan e também depois?

Para aprender a escrever:

Podem dizer o que quiserem, podem me xingar à vontade, eu acho que hebraico é um idioma que requer uma extrema dedicação, muita disposição e uma incrível imersão. Por isso eu digo e repito, eu acho praticamente impossível aprender hebraico sem morar em Israel e sem se desligar do mundo. Sua vida tem que se resumir a hebraico e a estar em Israel. 

Além disso, na minha opinião hebraico é um idioma que se estuda à moda antiga, então é muita cópia, muita repetição, muito dicionário e muito exercício de fazer frases e responder perguntas. Foi assim que eu estudei e para dizer a verdade estudo até hoje, só que em outro nível.

E para aprender a falar: 

Aprender a falar e treinar o ouvido de verdade foi sofrido, mas basicamente eu ouvia muito rádio (notícias) e muita TV. Eu assistia de tudo desde de notícias até programa sobre a reciclagem dos anéis de latinha, fazer o que? E eu sou uma pessoa que eu odeio televisão, mas era necessário. Uma coisa que alavancou muito meu hebraico, por incrível que pareça foi o Big Brother. 

E uma outra coisa que eu fazia era assistir o canal 23 que se chama Televizia HaHinurrit, que é a TV educativa de Israel, eles tem umas séries legais para quem estuda hebraico e também para quem estuda árabe. Tem outras coisas também, química, física, matemática, inglês etc. É um canal bem legal.

Vou deixar o link deles de hebraico, para quem quiser ver:

Os vídeos que têm lá, não são os mesmos pelos quais eu estudei, mas são da mesma série. Eu simplesmente decorava todos os diálogos e ficava repetindo. Aliás, a mesma coisa eu fazia com os textos dos livros, copiava, lia várias vezes em voz alta até decorar e depois repetia sem ler algumas vezes, por alguns dias cada texto do livro e cada diálogo do vídeo, você fica quase louco (ou louco mesmo! rsrs), mas funciona.

Eu sei que quando se fala em decorar chovem críticas, parece que você está maculando o sagrado direito de aprender. 

Mas compreenda um coisa: em primeiro lugar você não faz uma escolha entre aprender e decorar, você usa um como auxílio do outro; em segundo lugar, muita coisa que a gente acha que aprende na verdade foi decorada ao longo da vida (alfabeto, tabuada, dados históricos, capitais e até formas de comportamento, entre outros) e depois tem outra coisa, podem ficar tranquilos decorar não causa nem uma doença grave, não prejudica sua vida em nada e ninguém nunca morreu por decorar alguma coisa.

Se você chegou até o fim desse post, eu agradeço enormemente! rsrs. 

Eu sei que eu poderia escrever muito mais sobre isso, mas eu tenho minhas dúvidas se a maior parte de vocês vai ler isso até aqui. Então...
Mas, basicamente esse é o resumo da minha experiência com o hebraico!


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